Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

eu não estou on

ao contrário do que possa parecer, eu não tenho nenhum desejo de estar sempre ligado. sei que o meu uso caudaloso, quasi-deslumbrado e festivo da internet e dos seus serviços, pode indiciar uma tendência ou um desejo de estar constantemente on. a saber: não tenho pachorra para msns, gtalks e afins, apaguei o hi5 e o orkut ao fim de um par de anos de uso desinteressado e bocejante e eliminei o facebook logo na primeira semana. o myspace existe, mas está e vai continuar vazio e abandonado, só o tenho porque tenho de estar registado para ter acesso a alguns serviços. recentemente deixei de usar o twitter por pelo menos uma semana - talvez por já me estar a chatear a sua omnipresença no meu dia.

eu uso dezenas de serviços, estou inscrito numa infinidade de redes sociais. tenho muitos blogues. mas todas estas páginas estão à disposição dos meus ritmos, da minha assumida inconstância e da minha volátil e intermitente vontade. abomino a ideia de alguma coisa (seja mail, seja chat, seja micro-blog ou o catano) que me ligue permanentemente à net e/ou à possibilidade de me contactarem. digo e digo-o a sério, aos amigos, que tenho o telemóvel sempre ligado, que estou sempre disponível para eles. (tiro o som durante espectáculos, reuniões e eventos mas deixo-o ligado durante toda a noite). mas uma coisa é estar disponível para a chamada ou a mensagem de um amigo. outra coisa é garantir que existe sempre uma presença minha na web. durante o trabalho, o email e o telemóvel profissionais estão sempre ligados e disponíveis, mas isso tem o seu contexto e limita-se ao expediente. MacLuhan, metaforica e profeticamente, disse que os meios de comunicação iriam tornar-se uma extensão do sistema nervoso central das pessoas, ligando-nos a todos numa aldeia global. pode ser assim. mas sou eu que ligo e desligo, quando quero e se quiser.

A eloquência do vernáculo

Eu tinha 10, 11 anos quando finalmente percebi como se faziam os bebés. Foi numa aula de Ciências da Natureza, por volta de 1986, e lembro-me perfeitamente do professor. Tinha cerca de 40 anos, um metro e noventa e muitos, muito pouco cabelo, apenas uma amostra de cada lado da cabeça, acima das orelhas. Tinha um ar bondoso e ingénuo, acentuado pelo hábito de andar de costas curvadas - talvez para amenizar o efeito da sua altura. Era magro e tinha óculos graduados de armação grossa e escura. Lembro-me bem do professor, e sempre que penso nele, lembro-me também do cartaz com o desenho de um homem, com os órgãos internos em destaque e ao lado figura semelhante representando a anatomia de uma mulher. Havia ainda outro cartaz com a representação de uma nave espacial mais ou menos triangular com duas antenas (ou asas) de cada lado - depois o professor disse que a nave espacial afinal era o aparelho reprodutor feminino. E, neste caso sem hipótese de confusão, uma pilinha, mas em grande, e com canais e outras coisas visíveis numa transparência em camadas.

O professor deve ter perguntado se havia dúvidas, como era hábito depois de explicar algo numa aula. E eu não tinha. Tinha deixado de ter, e imagino que a boca e os olhos, muito abertos e atónitos, provavelmente denunciavam quão recente era a minha descoberta. Uma frase ecoava na minha cabeça, "afinal é mesmo assim". Não era, de forma alguma, a primeira vez que eu tinha ouvido falar de enfiar pilinhas em pipis, de introduzir pénis em vaginas ou, como era comum escutar no recreio, enterrar caralhos em conas. Muitas anedotas, "piropos", más-línguas se referiam a esta prática tão estranha. Mas eu pensava que dizer "se te apanho a jeito enterro-te o caralho nessa cona" era uma espécie de ameaça de um castigo, como quem dissesse, "se te apanho, bato na tua cabeça com um ferro". Na minha cabeça de miúdo que não dizia mas ouvia muitas asneiras, todo o vernáculo à volta dos genitais tinha ou uma função escatológica - dava jeito para enfatizar o discurso anedótico - ou era veículo para se manifestar agressividade ou uma forma de difamar determinada rapariga. Lembro-me perfeitamente de um colega, num dia de chuva, chegar à entrada do pavilhão onde ficava a sala da aula seguinte. Vinha a segurar um guarda-chuva e de braço dado à N., a minha paixão da altura. Ela deve-lhe ter contado que eu a tinha pedido em namoro e que ela recusou. Esse meu colega, com o seu habitual ar trocista e autoritário de miúdo mais velho dois anos, virou-se para mim, com a atitude de quem vai contar uma anedota em que o interlocutor é também o protagonista. "Sabes onde estive com a N.? Estive nas escadas do prédio. E sabes o que lhe estive a fazer? Estive a enterrar", e fez um gesto com o braço, de punho fechado, para a frente e para trás. "Sabes o que é enterrar?". Não é que eu fosse um perito, mas percebi que ele estava a falar de enfiar a pilinha dele no pipi dela, quer dizer, a enterrar o caralho na cona.

Depois da aula, voltei a pensar neste episódio. Voltei a pensar que não poderia competir com um rapaz mais velho e sabido como ele. Se ela tinha mais um ano que eu e ele mais um ano que ela, era só fazer as contas. Pensei também na atitude dela, enquanto ele se dirigia a mim. Ela não encorajou a minha humilhação de rejeitado e desajeitado, mas, por outro lado, também não se mostrou humilhada. E ao rever rostos e frases na minha recordação, concluí "pois, afinal ele não me queria dizer que tinha feito uma coisa má à N., provavelmente ela gostou".

Uma parte da minha iniciação sexual (a parte de saber o essencial da teoria) deu-se por via do vernáculo. Foi a linguagem dos meus colegas, obscena e sôfrega, violenta e galhofeira, que me baptizou. E o professor de Ciências da Natureza confirmou-me, no crisma do conhecimento de como as pilinhas e os pipis afinal foram feitos uns para os outros.

publicado originalmente no sexUtopia, a 19 Fevereiro 2009

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

sementeira

acordar do sonho para os teus braços. ser do tempo como o orvalho é da manhã. beijar-te ao nascer do silêncio e encontrar na carne um ninho para o espírito. tecer a felicidade com os teus cabelos, as nossas pegadas, a luz das estações. deixar as nuvens regressarem, partirem e formarem-se de novo, sobre a nossa sede. usar as dúvidas como isco, ao pescar no lago do nosso futuro. e dormir na margem, mesmo se comemos apenas os frutos da vontade. à sombra destas árvores podemos beber dos lábios a canção que nos embala. deixar que as palavras colham as sementes que haveremos de conjugar. comunicamos na distância da pele, na proximidade do desejo, na nudez do aconchego. dizemos tudo o que não tem conceito, por intermédio do calor de sorrisos e do atrevimento das mãos. poupamos saliva para o ofício mais nobre da boca - com um beijo nos deitamos na noite, para juntar os sonhos em lenha que nos aquece o corpo e sossega a atenção.

gotas de inspiração

quase todas as histórias que escrevi começaram com uma frase curta, um ideia muito simples, uma intuição. quase todas começaram quando comecei a escrever, não existindo inicialmente na minha cabeça vestígio de personagens, enredo ou contexto. quando as concluí, percebi que não surgiram do nada, que manifestavam a cor, a forma ou o sentido das minhas emoções, ideias e memórias, em dado instante. foram raras as vezes em que imaginei uma história, criando na minha mente as personagens e as circunstâncias que as envolviam, antes de escrever. lembro-me disto a propósito deste conto inacabado. quando o comecei a escrever, não tinha nenhuma pista sobre quantas personagens haveria, como se relacionariam ou qual seriam as suas histórias. esta forma de começar a escrever antes de pensar é-me natural e bastante frequente. ao pensar nisto, há alguns minutos atrás, pareceu-me subitamente bizarro este hábito de desatar a escrever sem ter nada de concreto e ir descobrindo a história à medida que a escrevo. sou todo a favor do 10 por cento de inspiração e 90 por cento de transpiração. não pretendo defender a preguiça ou a crença na generosidade esotérica das musas. apenas constato - até com alguma preocupação - que eu geralmente atiro-me ao papel ou ao ecrã em branco sem saber à partida o que vou lá fazer. tenho memórias difusas, mas geralmente agradáveis, sobre momentos em que as personagens iam revelando os seus segredos e a sua história, enquanto eu escrevia. alguns escritos foram escritos de maneira diferente, evoluindo a partir da necessidade e do desejo de encontrar um edifício para a expressão de algo já bastante concreto no meu íntimo. um romance, que tenho por acabar há já algum tempo, motivou-me mesmo a tirar imensas notas, a fazer uma cronologia dos acontecimentos, a criar biografias para as personagens, a compilar uma lista bibliográfica relacionada com o tema; no fundo, a esboçar a arquitectura do livro. mas isso é a excepção. enquanto jornalista, é certo, eu escrevia sempre a partir do que queria comunicar, o texto era um meio para transmitir algo que já existia à partida. e eu gostava muito dessa forma pragmática e ágil de usar a linguagem escrita, dessa eficácia formal. quanto aos textos pessoais, como este, continuo, de alguma forma, a beneficiar de alguma da ginástica que em tempos adquiri e treinei, embora já esteja um pouco enferrujado e não tenha, agora, de me preocupar com os aspectos ético-formais que eram a base da minha prática profissional. na poesia, que cada vez escrevo menos e com mais dificuldade, é ainda mais comum partir para a escrita com apenas uma leve suspeita, uma sede vaga e incómoda, um eco de uma emoção, um tom. relativamente aos 90% de transpiração necessários para escrever um texto que valha a pena ler, tenho verificado que o trabalho árduo não existe apenas (nem principalmente) durante o acto de escrever esse texto específico. é essencial, desde logo, a agilidade e argúcia que só a prática continuada estimula e sustenta. quando me sento a escrever um texto, houve milhares de textos e leituras, antes daquele momento, que me permitiram estabelecer a relação que tenho com as palavras e as ideias. é também fundamental viver, com alguma intensidade e uma atenta e fecunda lucidez. viver, nem que seja interiormente - se não puder ver o mundo todo e conhecer civilizações inteiras de gente. a minha experiência emocional é determinante para a forma como insuflo de credibilidade e pertinência as personagens. e quando, finalmente, estou a escrever, há uma sintonia comigo mesmo, uma urgência intensa, mais direccionada para a contenção ou mais dependente da catarse, mais consciente ou mais automática, há uma sintonia comigo mesmo que me permite assegurar que as palavras transportam o que em mim precisa de ser exteriorizado.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Joanna Newsom - "Sprout and the bean"

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

carta aberta, coração atento


amada luz dos meus sonhos,
estou convencido de que é fácil vivermos um sem o outro. fomos (nem sempre, mas bastante vezes) felizes quando ainda vivíamos na ignorância do desejo que nos aproxima. não será necessária uma trágica transformação dos nossos hábitos para que regressemos ao que éramos antes da álgebra emocional que nos adicionou à vida um do outro. está ao nosso dispor esse minúsculo desvio que começa na bifurcação que inventemos. um subtil afastamento e cada um segue, como antes, no sentido do horizonte, mas sem a luz do olhar do outro respirando próxima.

não fomos a salvação um do outro. nenhum dos dois é a única hipótese de felicidade que o cosmos preparou para o outro. somos almas tão gémeas e irmãs como as outras almas, nossas irmãs. não precisas de mim, nem eu de ti. sorrio mesmo sem o calor do teu sorriso a lamber-me o rosto, divertes-te mesmo se não estou por perto para partilhar a tua alegria. somos pessoas inteiras e completas, como já éramos, como continuaremos a ser.

a distância a que vivemos um do outro veio ajudar os nossos quotidianos a coexistirem, em vez de interdependerem. foi esta independência emocional que alicerçou o lento e fecundo revelar das nossas personalidades. em nenhum momento quisemos abdicar da vida que tínhamos nem desistir da vida que desejávamos, para viver em função da vida que se cruzou com a nossa.

se desejo o teu corpo, a tranquila força do teu abraço, o som familiar da tua voz, não é porque preciso de ti. e suspeito que procuraste o meu sexo, a minha presença, a minha amizade sem necessidade que te encurralasse. é a liberdade que nos une, o vigor da vontade que sustenta a nossa relação, a límpida vertigem do desejo que faz dançar os nossos corpos.

não tenho outra morada além desta feita de carne e ossos, de sangue e memória. envelhece e cansa-se, mas é pequena o suficiente para que ande sempre comigo. monto a minha tenda nas vizinhanças do coração, para poder dar guarida a amigos, amantes e família, para poder convalescer, frágil e protegido, em braços que me amam. para onde vou é a minha terra, o solo que piso é o solo amado. e não me digo precário. sou antes frugal, se é que se pode dizer que é frugal quem vê tudo no pouco. enriqueces o meu caminho, com as histórias, as cicatrizes e a sabedoria do teu próprio caminho.

quero que saibas que te desejo, muito. e digo desejo significando manifestação espontânea e intuitiva da vontade; uma espécie de proto-vontade, irracional e bela, livre e amoral; uma forma de ignição vital da vontade, tão corporal e tão emotiva como a sede. desejo-te. quero estar contigo, ser feliz perto de ti, visitar a nossa tenda, prolongar a lua-de-mel que é a nossa relação. os meus dias sem ti são bons quando são bons, e maus e assim-assim, quando assim são. quero dias partilhados, quero a tua pele na minha.

não deixemos esmorecer a alegria que encontrámos, por ser mais fácil (nessa preguiça de quem fica muito sossegado, para não acordar a dor). sei que deste lado tenho deixado os dias passarem, impunes. e o tempo pesa na memória, quando não é vivido com intensidade ou lucidez suficientes. esqueçamos invernos futuros, tempestades vindouras. é verão. e estamos vivos.

até breve, azul das minhas asas, meu amor,
nuno.

o senhor sombra - IV

havia dias em que lhe apetecia apenas ficar encolhido, até a luz passar. deixava-se amarrotar, inventando a noite precocemente. como se perdesse cor, ao ser mergulhado em lixívia, o pergaminho do seu corpo escorria, lavando as palavras, levando as palavras. um dois três, silêncio. um dois três noite. um dois três casulo. um dois três fecho olhos. um dois três não existo. um dois três que venha o dia acordar-me. um dois três fico quieto. um dois três nem sei falar. um dois três secaram as lágrimas. um dois três não quero contar. um dois. [texto que me tinha esquecido de publicar, há tempos]

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

nas vizinhanças da pele

hoje é um daqueles dias em que me sabia bem uma orgia de mimos. um desses encontros de desconhecidos que vestem pijamas para se enroscarem uns nos outros, numa sala ampla com música de fundo relaxante. apetecia-me ficar de olhos fechados umas horas, sentindo o abraço de outro humano, os seus joelhos flectidos encaixados nos meus joelhos flectidos, os meus dedos lentamente acariciando o cabelo de outra pessoa cujo braço descansa na anca de uma outra pessoa que se espreguiça silenciosamente, enquanto recebe um beijo no ombro. é um desses dias em que apetece esquecer o quotidiano, as preocupações plantadas pelas notícias, as angústias que circulam no sangue, os medos alimentados pela precariedade e pela pouca aptidão para o sucesso. é um dia em que faria amor estando nu apenas, sem outra necessidade que não fosse a tranquilidade e o refúgio, tomados nos braços de que tenho saudade, despido de sofreguidões e vaidades. hoje é mais um dia em que me apetece o amor, não o pensamento circular e sufocante dos apaixonados nem a soberba trágica dos românticos, apetece-me esse amor que aceita e regenera, que acolhe e alimenta. hoje, a dor abriu-me como a um fruto maduro. estou pronto para ser feliz, dizem-me as lágrimas que não consigo chorar. passei o estágio da desolação e quero a vida.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

mexer em livros

enquanto crescia, a maioria dos livros que lia ou eram da biblioteca municipal ou eram de alguém que os tinha emprestado. assim, estava sempre presente a necessidade de cuidar do objecto emprestado, que os meus pais iam alimentando com os seus conselhos. habituei-me a ter uma reverência obsequiosa em relação ao objecto livro. sentia que tinha de tratar o livro como algo delicado e precioso, exposto a todo o tipo de danos e perigos. este sentimento atingiu o seu auge quando por acidente deixei cair ao chão um livro de capa dura que não era meu destruindo-lhe a lombada já gasta e fazendo a capa desprender-se por completo. custou-me muito dar a notícia ao dono do livro, sabendo que aquele era um dos seus favoritos e que me tinha avisado para ter o máximo de cuidado ao usá-lo. este episódio só veio ajudar à angustia de usar livros emprestados. manusear um livro, neste ambiente mental de vigilância e concentração, perdia muito do seu prazer. ao mesmo tempo que lia as histórias e os poemas, com deleite e assombro, o papel que tinha nas mãos impunha-se à minha destreza como coisa frágil e temperamental. foi assim, e por sugestão da minha mãe, que ganhei o hábito de guardar livros em sacos plásticos dentro da pasta que costuma andar comigo. quando comecei a trabalhar e a ganhar o meu dinheiro, tornou-se habitual comprar os livros que leio. e foi uma verdadeira revelação a sensação de poder relaxar a vigilância. sendo meus os livros, não tenho de me preocupar com qualquer dano. tem corrido bem esta deliciosa despreocupação, até agora já sobreviveram muitos livros à minha tendência para a asneira e o acidente.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

o senhor sombra - III

tinha a tendência para falar demais. esta característica sobressaía claramente porque os surtos de loquacidade brotavam de momentos de silêncio. ouvia, durante muito tempo e com muita atenção. a sua mente registava cada facto escutado, cada pista, cada espinho na sua vaidosa argúcia. quando encontrava uma brecha em discurso alheio, metralhava as suas ideias em torrente desestruturada e delirante. sempre que o interrompiam, perdia-se um pouco nas ligações que tinha feito antes de falar. isso não era suficiente para o coibir de encher de palavras as suas dúvidas. vestia de argumentos as certezas que o feriam. era comum, enquanto caminhava sozinho pela cidade, entabular diálogos consigo mesmo. desta forma, limava as arestas dos argumentos menos trabalhados, no confronto com o seu próprio cinismo. esquecia-se do mundo, ao percorrê-lo a pé. talvez tanto ruído verbal fosse uma forma obsessiva de fugir do silêncio. talvez preferisse as águas turvas e turbulentas de uma discussão à clareza límpida de um silêncio fecundo. é difícil dizer, já que muitas vezes caía pesadamente no silêncio, como quem se deixa cair numa cadeira depois de um dia de trabalho árduo. e, com pessoas vizinhas do seu coração, conseguia conversar sem palavras, em momentos em que tudo o que estivesse em redor lhe entrasse dentro como luz através de uma cascata. tanta dedicada concentração em frases e gramática, em esgrima de opiniões e réplicas argumentativas, tornava-o, aos olhos dos outros, um crónico distraído da pertinência, uma criança que insistentemente abana o braço da mãe, para a fazer escutar as últimas notícias sobre brincadeiras e sonhos. era consciente este seu excesso inoportuno do uso da fala. sofria com a sua falta de tacto. o melhor que conseguia era o adiamento da sua verborreia, enquanto escutava alguém a falar: inevitavelmente falaria, muito, para dizer poucas coisas. imaginava que teria gradualmente mais e mais dificuldade em captar a atenção dos seus interlocutores. e sentia que falava demais, independentemente de falar muito. ele sabe que há situação em que duas palavras já são demais. e noutras, descobriu ou inventou, mais vale palavras ocas que repitam ideias feitas e gerem uma preguiçosa empatia, que palavras cortantes e trabalhadas, ideias-espada, frases-manifesto. pensava demais. e começava a acreditar que falar muito era como encher de lastro os sacos de areia que impediam a sua mente de levantar voo, como balão de ar quente que é mais leve que o ar - a não ser que se lhe acrescente peso.

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

medo que se guarda em bolso roto

a distância atenua e distorce, estende e amassa. limpo o suor com a mão, usando-a depois para fazer sombra e procurar nitidez no horizonte. o sol faz ferver os contornos, tornando miragem o que parece estar ao alcance de alguns passos. somos um óasis volante, um acampamento no coração. carregamos a sede e alguns mantimentos. conhecemos os sinais que indicam abrigo, no cansaço da peregrinação. estamos sempre a caminhar, lado a lado, em ansiosa rota de colisão, em percursos que se cruzam unindo hemisférios. deitamo-nos para sonhar com o dia seguinte e acordamos ainda na imprecisão lânguida de quem desconhece a herança do momento presente. no precário fazemos explodir os frutos do olhar. nascemos do sexo a cada lua e uivamos ainda na respiração que se acalma num abraço doce e extenuado. partilhamos o timbre da solidão, para o lavarmos da pele quando entramos no mar despidos das canções da saudade. nadamos em redor dos abismos, na lentidão de peixes saciados. quando regressamos à tona do dia, as bocas estão salgadas e unidas. os pés pisam o continente sem sobressaltar os vulcões e o vento namora os cabelos. regressamos a uma desolação que adocicámos, feita de flores nascendo em cinza e lava endurecida de milénios. não existe a morte do tempo, nem a vida absoluta da carne. atravessamos os ciclos, plantando o que nos transborda. os dois dentro do espaço do mesmo lago, provocando as tempestades que o amor leva em eco até às margens, extendendo-se em ondas para fora de nós. há que sair para que a vida decorra, até que arrefeça o ninho acalentado por um silêncio em chamas e permita de novo ao peito a distância. não habitamos o sonho, do seu húmus fazemos solo e jardim. moramos no que não tem mapa, confiando na bússola da voz de cada um, para que o escuro receba o farol dos nossos corpos nus resplandecendo.

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

os meus tempos de febre de púlpito III


acho que nesta até pareço estar a dar um sermão :D


Is wishing a person had never been born as bad as wishing they were dead?




foi esta a minha resposta:




Is wishing someone will never know what happiness is the same as wishing that person is unhappy?

Yes it is.

And yes, to wish someone was never born is not good.

We are emotional beings. And we have both positive and negative emotions. That's the way we are. If either of those emotions (positive and negative) are too strong, they can do us harm. They alter our metabolism, cloud our judgment, make us act on impulses, make our behavior more erratic or chaotic.

You should not be too judgmental about your emotions.

But by asking that question it seems that you are seeking validation for a negative emotion. Don't do that. It's better if you acknowledge that it is, in deed, a negative emotion.

And, it takes times, but try to wish good things to people who hurt you. (I'm not saying you should try to be friends with people who are out to harm you, no, you should stay away). But, in the distance, in your comfort zone, in your own space and time, in your mind, try and think positive things about those you dislike, those that you hate, if you have feelings of hate. It's quite liberating, because you no longer are trapped in bitterness and remorse.

And think about it, if you wish that someone (who has done harm to you) is happy, and that person becomes happy, then it's one more that will not feel the need to inflict pain, to cause suffering on others. Happy people don't hate, happy people don't spend their time making others unhappy.

And to be happy, we should, gradually get rid of negative thinking, negative emotions and negative behavior. Just relax, and don't go on making circles of thought, thinking "is it bad that I felt this?", "am I a bad person because I had this thought?". Just feel, acknowledge what you feel, and stimulate positive thinking and positive emotions. (don't be your own mental police, just a quiet, benevolent, and attentive observer).

It works for me :D
  • 6 months ago

os meus tempos de febre de púlpito II


a dada altura, no Y!A, deparei-me com esta pergunta:


Believe in Christ or consciously choose hell .. ?

I am 20 years old and I recently became a Warrior for Christ. Why doesn't everyone just follow Jesus. Ever since i became a christian, I made new friends and joined a rock band for jesus. I was able to play at the Whisky and Roxy theatres in Sunset Blvd in Hollywood. I believe Jesus opened these doors for me.
I believe whoever is stupid enough to ignore Christ is going to get sent straight to hell. Human beings are so stupid that even the fear of hell wont get them to believe!
Our daily prayer meetings and my church leave me speechless in the account of God. While in deep prayer, i begin to shake and shiver and i feel the holy ghost pass through my body like a cold breeze. I begin to speak in Iraqi and Israeli which were the original language of God. After a prayer meeting, i am able to sufficiently hold a full conversation in a foreign language with a fellow brother in Christ.
I just don't understand why all you sinners don't come to Christ. We have so much fun and activities at church, and all the youth goes there to hang out and praise the lords name.
Why don't you believe? BELIEVE OR BE REJECTED FROM THE KINGDOM

eis a minha resposta:

So...

People in India will burn in hell. Chinese will burn in hell. Jews will burn in hell, Buddhists will burn in hell, Muslims will burn in hell. Even other Christians, that don't buy your belligerent version of Christianity, will burn in hell.

That is quite a benevolent and love-driven religion you got there.

"Human beings are so stupid that even the fear of hell wont get them to believe!"

That is the worst reason for someone to believe in something. Beliefs are deep, solid assertions that we hold as essential, liberating and structural truths. They have roots in our deep personality and are amplified and protected by our emotional self. Fear does not work. You cannot build a belief because you are scared that if you don't believe it you will go to hell. That's not how it works. Fear can cause phobias, traumas, inner problems, conflicts. But a belief, a solid religious belief, is strong, has a healthy and peaceful vitality and is built upon experience and certainty.

Think about your parents and you. Imagine you are 15 years old. And they say "don't take drugs because they are bad for you", and they sit with you and talk about all the bad things that drugs can cause, they tell you about drug addicts they know, and how their lives were destroyed, they present medical evidence of the harm that drugs can do.

Now imagine that your parents only tell you "don't take drugs or we will beat you so bad you will need to go to the hospital".

If you are 15 you can think for yourself. Which do you prefer? To be told about reality and decide based on facts or to be scared so you don't do it because you are terrified of what your parents can do?

The reason for someone to believe in Christ is that His words can make you happier, His teachings can make you have a meaningful life.

If you believe mainly because you are afraid of Hell, than there is no merit. You do not even need to understand the Scriptures or know what Christianity is.

And I resent that attitude "all you sinners". That is not christian. You should read the gospel, and study the parables. You are the guy in the front row saying "thank you God because I am not like that guy, who is a miserable sinner". And the sinner, in the last row only says, "forgive me, for I am a sinner".

Read the bible, and instead of aggression, try to figure out what kindness and love of your enemies is. (you need a lot of love, don't know what happened to you, but you really sound like you need people to love you. try to love them, too, you will be happier)
  • 6 months ago

os meus tempos de febre de púlpito


releio sorrindo o meu entusiasmo inflamado.
eis a minha resposta a esta pergunta no Y!A:


This is irritating. And makes me lose a bit of my tolerance (not my religious tolerance, my absurdity tolerance).

This circular, tautological and hermetic thinking makes me mad....

So, if it is a homosexual, you have no doubt he is a sinner. You absolutely knows what God thinks.

If it is a learning disabled person, because you cannot quote the bible, than God only knows....

This is so absurd. You have no problem pointing out the sinns and sinners that fit your political agenda (or the political agenda or whomever dictates your views of the world). Don't do that. Stand up for what you believe, with no fear of looking old-fashion or too progressive or whatever. In order to integrate the world, we must have simple yet reliable moral notions on the world. And if we aknowledge that we lack an opinion or information on a certain issue, then we must take the time to do a serious reflexion on that subject, and not close our mind to any new thinking, by stuffing the entrance of our psyche with quotes and things other people said.

So, if someone asks you about something that is not written in the Bible, and to be more precise, something that you think is in your interpretation of the Bible, you have no answer... So the next 2000 years will be very confusing times for you. Have you any idea of the transformations that will occur? All the technologies, new trends and lifestyles... Will your religious beliefs summarize to "when jesus comes we will see"? Or are you hoping that Rapture comes as soon as possible, so you don't have to face the world, the annoying moral choices, the complexity of living?

How can you have any ethical coherence??

In one of my questions, about the war, many christians said that, when Jesus comes, we will see if the war was a good thing. And that was it, for them. I ask, what Bush did on Iraq, is it good or bad, according to your religious beliefs? And the answer is, when Jesus comes, we will see!!!!! That is so.... I have no word for it. If religion does not help you to know right from wrong, if your religious beliefs don't help you to decide "I will not do this, this is bad", then what good is religion in your life?

That way of doging questions is so intellectually dishonest!!! Or just dumb (I would rather believe that it is just dumb).

We absolutely (both religious people, atheists and agnostics) need to know where we stand on the important issues. To have an ethical back bone, some kind of seriousness in our moral choices, to have some coherence we must decide what we think, and become aware of what we feel about the most important moral dilemmas.

To say, "God Knows, when Jesus comes, we will see" can be, sometimes, to be humble and accept that we don't know everything. But 99% of the times those expressions are used it's just a way of escaping from an honest answer.

If someone asks you, "is this a sin", and you don't know and don't even try to figure out or think about it... How can you expect that person to give you any credit when you say, about something else, "oh, this is a sin, no doubt about it"? And if you don't know the answer but try to disguise it by quoting blindly the Bible, how can you expect that people listen to you when you quote the Bible? Do you think that you can impress and deceive people by demonstrating you know the Scriptures by heart?

And why don't you say, "God only knows if homosexuality is a sin"? Why don't you say, "when Jesus comes (He that spoke about all the important things, but never mentioned homosexuality), we will see who is right, we will see if gays are sinners or not"?

For me, in a religious point of view it's clear: no, someone that cannot understand the notions of sin, chastity, etc, someone that cannot fully understand the theology that other people study and understand, cannot be sinful by acting out of ignorance of what is beyond the learning reach. But that person is still responsible for the actions that that person can understand. For example, that person understands that beating another person is wrong. So, if he or she punches someone else in the face, it's a sin and that learning-disabled person should be accounted for that action. That person will know (maybe in a simple or simplified fashion) that he or she should not make others suffer. And know the basics of what is good and what is bad. So others can expect that person to do right and stay away from bad. And it's not important if the abstract theological notions aren't perceived. What matters is the understanding that all people deserve to be happy and that we should not make them suffer but, instead, help them to be happy.

(corrigi alguns erros ortográficos do texto original)

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

o senhor sombra - II

quando era criança gostava que chovesse muito. depois da escola, se a chuva o apanhava a meio do caminho, abrandava o passo. seguia para casa, embebido em tranquilidade, sentindo o impacto das sucessivas gotas na pele, a água que escorria pelo rosto, o crescente peso das roupas molhadas. pequenas madeixas de cabelo encaracolavam-se na testa, como gárgulas abstractas por onde nasciam riachos na pele. os passos produziam um som cómico, chluf, chluf. e ele sentia a água a transbordar para fora das sapatilhas enquanto pisava o chão. ia provando o líquido da chuva que lhe escorria perto dos lábios, a cabeça inclinada para cima, para admirar os relâmpagos. por vezes, um espirro ajudava a tornar o momento mais solene e concreto. agradava-lhe que o vento tornasse imprevisível o ângulo de queda da chuva, fazendo com que rajadas de gotas de água o atingissem intermitentemente. ver as pessoas à sua volta correndo para debaixo de tecto ou lutando para manter o guarda-chuva com a concavidade para baixo não o fazia sentir-se menos integrado ou pertinente. continuava o seu caminho, os tecidos muito colados ao corpo, produzindo ocasionalmente sons de sucção, várias pequenas cascatas pingando do nariz, das orelhas, do queixo. em dias ainda mais especiais, caía granizo. os pequenos pedaços de gelo estatelavam-se no chão fazendo ouvir-se um trtrtrtrtrtrtrtr contínuo e volumoso. nessas alturas, juntava-se com prazer às pessoas que corriam, algumas delas sorridentes como ele, e procurava um local de onde observar o fenómeno. retirava do cabelo irregulares bolas de gelo e comparava o seu tamanho com as que caíam do céu. mais tarde, chegava a casa, para o sermão carinhoso da mãe, que lhe conhecia o gosto pela chuva. tremia um pouco de frio e recordava os picos de intensidade da chuvada que atravessara, as tonalidades de cinzento leitoso do céu, o som da saraiva a atingir os vidros. era felicidade pura e clara o aconchego da roupa seca, ao sair do banho. e no tempo que demorava até secar o cabelo, a chuva perdurava na memória, como os melhores sonhos durante a manhã em que desaguam.

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

o senhor sombra - I

durante as crises era como se ficasse encolhido em casulo, à espera de metamorfose que o renovasse. se o medo o atirava para a paralisia, era para que crescessem heras debaixo da estátua petrificada em que se fixava a sua personalidade. a vida irrompia, quebrando a pedra e a imobilidade. antes de qualquer redenção, vinha a tempestade, a errância, o abandono trágico, a podridão da esperança. depois, era só agarrar-se a um escolho na aceleração da corrente e deixar-se ir até entrar no mar ou encalhar numa das margens.

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

amor, patriotismo e medo

"Let me ask you this, Mr Ai: do you know, by your own experience, what patriotism is?"
"No," I said, shaken by the force of that intense personality suddenly turning itself wholly upon me. "I don't think I do. If by patriotism you don't mean the love of one's homeland, for that I do know."
"No, I don't mean love, when I say patriotism. I mean fear. The fear of the other. And its expressions are political, not poetical: hate, rivalry, aggression. It grows in us, that fear. It grows in us year by year. We've followed our road too far. And you, who come from a world that outgrew nations centuries ago, who hardly know what I'm talking about, who show us the the new road -" He broke off. After a while he went on, in control again, cool and polite: "It's beacuse of fear that I refuse to urge your cause with the king now. But not fear for myself, Mr. Ai. I'm not acting patriotically. There are, after all, other nations on Gethen".

in The Left Hand of Darkness, pág.19, Ace Books, Ursula K. Le Guin
parte do diálogo entre Estraven, 1º ministro de Karhide, do planeta Gethen e Genly Ai, terráqueo e emissário dos Ekumen.

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

novo texto no esotelurico ao som de Opeth


#10 - a sombra de um outro dia

o som do vento enrola-se nas paredes. corrói as memórias, como pedra em leito ancestral. dedilho o silêncio como a um enigma. escorre o vazio desde as entranhas, mancha o chão de figuras e tinta. o vácuo é a âncora do pensamento. as unhas cravam-se na mobília, antes que o corpo desapareça na voragem do íntimo. a mente é uma espiral cósmica, um infinito nada. descalço, salto pela janela. a floresta, negra e cheia de ruídos, acolhe a corrida. durante o medo, deixo pegadas debaixo das árvores, como se fosse perdendo lastro. é quando me perco que consigo parar, todo o corpo respirando ofegante e atento. não há sombras, para além das sombras que a lua atira ao húmus. sou um animal com roupa. encosto-me a um tronco milenar, escutando o ar que os pulmões reciclam. estou mais perto de mim, aqui onde a noite começa. há outros animais, tão significantes como eu. endireito a coluna, e sinto a terra e as folhas humedecidas nos pés. o dia virá, e eu acordado.

Bleak - Opeth

astrologia, crença e conceitos ou analogia inusitada

esta crónica é uma resposta aos comentários deste texto sobre o agnosticismo. achei que faz mais sentido publicá-lo aqui que na caixa de comentários desse post antigo.

muitas vezes, alguém que se assume como ateu não está a dizer necessariamente "eu sei que não existe Deus", "eu acredito que não existe Deus", ou "eu nego Deus". está apenas a assumir-se como anti-religioso. está a dizer "eu sou contra as religiões", "eu vejo nas religiões uma forma de controlar as pessoas", "eu sou a favor de que as pessoas se emancipem das religiões e sejam livres". esta é até uma das formas de ateísmo mais frequentes e, ao mesmo tempo, mais lúcidas, focadas e bem fundamentadas.

eu, no que toca à astrologia, sou esse tipo de ateu. eu não quero dizer "os astros não têm influência na vida das pessoas". eu quero dizer "a astrologia, nos moldes em que está feita, é uma construção", e "as pessoas deveriam não acreditar na astrologia". eu não nego a possibilidade de os astros terem influência na vida das pessoas. mas considero que a astrologia não ajuda a perceber que influência é essa. pelo contrário, só nos dá dados falsos, fantasiosos.

no ateísmo, pelo menos naquele com que me deparo mais vezes (e que geralmente é o que respeito mais), ninguém está preocupado em encontrar provas de que Deus não existe. estão sim ocupados com a denúncia do que vêm de mal nas religiões. há uma militância que pretende expôr quão erradas são as religiões e quão frequentes são, nas religiões, os abusos de vários géneros. nesse sentido, ser ateu é negar a religião de forma fundamentada e política. em termos de crença, provavelmente muitos destes ateus são agnósticos. e assim regresso ao que já comentei no post linkado acima: dizer-se que se é agnóstico não diz nada sobre a posição das pessoas quanto à religião e à espiritualidade. dizer-se religioso ou ateu, sim. e tanto um ateu como um religioso podem ser agnósticos, no sentido mais lato da palavra, ou seja, quer um ateu quer um religioso podem aceitar e defender que não é possível provar a existência de Deus(es) ou do sobrenatural.

eu não sou agnóstico no que toca à astrologia. acho que é possível provar a influência dos astros nas pessoas. sou ateu em relação à astrologia, porque acho que a astrologia é a disciplina que menos pode ajudar no que toca à compreensão dessa influência. a astronomia, a física, a metereologia e inúmeras outras áreas da ciência podem ajudar-nos a perceber se e como o campo electromagnético da terra, a gravidade, a radiação, as tempestades solares que atingem a terra, os planetas mais próximos, etc., podem influenciar a nossa vida. pouco se sabe, mas se não dermos ouvidos à astrologia e escutarmos a ciência, estamos no bom caminho.

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

sementeira

acordar do sonho para os teus braços. ser do tempo como o orvalho é da manhã. beijar-te ao nascer do silêncio e encontrar na carne um ninho para o espírito. tecer a felicidade com os teus cabelos, as nossas pegadas, a luz das estações. deixar as nuvens regressarem, partirem e formarem-se de novo, sobre a nossa sede. usar as dúvidas como isco, ao pescar no lago do nosso futuro. e dormir na margem, mesmo se comemos apenas os frutos da vontade. à sombra destas árvores podemos beber dos lábios a canção que nos embala. deixar que as palavras colham as sementes que haveremos de conjugar. comunicamos na distância da pele, na proximidade do desejo, na nudez do aconchego. dizemos tudo o que não tem conceito, por intermédio do calor de sorrisos e do atrevimento das mãos. poupamos saliva para o ofício mais nobre da boca - com um beijo nos deitamos na noite, para juntar os sonhos em lenha que nos aquece o corpo e sossega a atenção.

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Acutalização no MFJEP

Novo texto no MFJEP:



Muita gente estará de olho no Huffington Post. Referência no jornalismo político estado unidense e, segundo o Technorati, o blogue número 1 (lugar que ocupa consistentemente há algum tempo), o Huff Post é um jornal de qualidade que tem existência apenas na internet. O facto de um jornal digital (e os vários investimentos de milhões, feitos por angel investers, permitiram entre outras coisas, alargar a redação, consolidando o profissionalismo que caracteriza a publicação) aparecer na lista de blogues do Technorati é um sinal interessante.MFJEP – Movimento a Favor do Jornalismo Escrito Pago



Clicar no link para ler o artigo completo.

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

física

o artesanato do teu carinho na respiração das células. bebemos música no pomar da boca. incendiamos o ar na combustão da pele. pequenos tufões a nascer da baixa pressão da língua. a sede é um poço que escavamos no sol. a lua derrama-se nos ombros, na maré do cio. dançar é revestir a nudez de imaginação. é voando que tecemos o ninho. aproximamos da chama o insecto do medo, cantando-lhe insinuações perfumadas. desfazem-se as suas asas estaladiças e a luz fica limpa, na refeição do olhar. abrigamo-nos da excentricidade do vento, até que fique de feição. já as velas na doçura da brisa e o dia que se abre desde o horizonte.

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

oeste


a câmara com focagem em infinito. e a ilusão chamada horizonte, a permitir o descanso dos olhos. as escarpas recortam a terra, para que encaixe nas marés. as gaivotas patrulham a fronteira, impunes migrantes indecisos entre o continente e o oceano. à mercê da espuma, a orla dos beijos de onda, a areia branca, os pés descalços. aqui, a distância até ao coração é uma asa. os braços, despidos de sustentação e aerodinâmica, esvoaçam até à enseada de outros braços. corpos sustentam olhares sem o peso da civilização. e a energia chamada criação leva o sol a banhar-se no azul, parindo a lua.

agreste












Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

de bater

é curioso como as tácitas normas que regulam uma discussão entre pessoas razoáveis e que se respeitam não parecem aplicar-se a uma discussão sobre o futebol. (estou a pensar sobretudo nos programas de televisão com um representante de cada um dos três clubes habituais, mas a minha reflexão também se aplica às conversas entre amigos, colegas, taxistas e clientes, co-frequentadores do café do bairro e pessoas em geral que, depois de marcar o ponto com os clichés habituais sobre o tempo, atiram um "e o jogo de ontem, hein?"). já se sabe que falar de futebol não é como falar de andebol, de remo ou de karaté. falar de futebol é, no fundo, esquecer o desporto e a sua motricidade específica, para abordar questões tão pouco desportivas como os comentários boçais do dirigente de um clube no telejornal da véspera, a imaginada corrupção dos árbitros que insistem em prejudicar a nossa equipa beneficiando os adversários directos, a malícia dos avançados da equipa rival que só têm talento para simular penaltis, o valor simbólico do nosso clube, imensamente superior aos méritos desportivos dos outros. talvez porque o terreno onde se joga o xadrez de uma boa discussão sobre futebol seja o da subjectividade, toda a razoabilidade parece caduca e mesmo ridícula, face às armas que a manha faz questão de usar contra o nosso interlocutor de cor diferente da nossa. passemos à análise das idiossincrasias numa discussão desta estirpe. deixa de existir o conceito de desonestidade intelectual - isso é para maricas e intelectuais, acima de tudo para intelectuais maricas. um homem a sério, se tiver que demonstrar que o seu clube de futebol tem sido, ao longo da época corrente, sistematicamente e propositadamente prejudicado pela arbitragem e pelo sistema (esse monstro furtivo e impune que assombra o sucesso do seu clube), se tiver que defender o seu clubismo, recorre a artimanhas mentais e habilidades lógicas que dariam um nó cego à mente mais brilhante e eficaz. há pouco tempo, li, num blogue sobre futebol, um longo e bizarro texto que defendia que determinado árbitro fez bem em expulsar com cartão vermelho um jogador que foi vítima de uma simulação de falta de jogador adversário. o autor da desenvolta e pateta crónica era do clube do que simulou a falta e, afirmando que não tem quaisquer dúvidas que houve uma simulação, continua a considerar que o árbitro tomou a decisão correcta (ora um erro de arbitragem é normal - em qualquer modalidade -, o que não é normal é a defesa do erro, ou a assumpção que o correcto é errar). a hipocrisia também é conceito desconhecido. por mais óbvia que seja uma constatação, se ela afecta a imagem pura e nítida do meu clube enquanto campeão pleno de glória e merecimento, então só pode ser falsa - é que contra argumentos não há factos, se os argumentos forem os da minha clubite crónica e incapacitante. não é hipocrisia, é coragem heróica, dedicada à cor da nossa bandeira, dizer que se continua a ter a nítida sensação que aquilo não era penalty, quando é óbvio para toda a gente que o defesa da nossa equipa tentou partir a perna do adversário com uma entrada mais própria do kickboxing que do futebol. mentir também não é grande pecado, quando comparado com a heresia de permitir que, através do recurso maldoso e imperdoável a essa artimanha chamada verdade, arranhem a honra do presidente do nosso clube ou a capacidade futebolística dos nossos jogadores. discutir futebol não é tanto discutir. é brandir galhardetes, como num ritual de acasalamento se exibe o colorido da penas, antes de avançar para a esgrima de absurdos. em cada contendente de uma destas discussões está um avançado verbal que, não tendo oportunidade de vestir a camisola com número das vedetas do relvado, veste a camisola do paleio, e gasta saliva como os jogadores suor, no esforço de elevar o clube às alturas da glória e do sucesso. e há até alguma patética formalidade cavalheiresca, como há centenas de anos havia nas batalhas em que as tropas inimigas se enfrentavam em campo aberto, coreograficamente avançando, ajoelhando, apontando, avançando, desferindo, tombando, estocando, recuando, volvendo, apontando. quem gosta de discutir futebol sabe que o outro sabe que ele sabe que o outro tem que dizer o que todos sabem que se diz. permite-se a verborreia alheia, para que a nossa possa também adubar o silêncio. e há mesmo um prazer confesso na antecipação do embate. se a nossa equipa perdeu, já sabemos que nos vêm com algo como "agora queixem-se dos árbitros, nem com um penalty oferecido conseguiram ganhar", já preparámos a resposta que sabemos que é esperada. e sorrimos ao tentar adivinhar se o contra-ataque será um flanquear da infantaria dos lugares comuns, ou uma manobra de diversão preparando um ataque furtivo da cavalaria das chalaças recicladas. discutir e debater, palavrar sobre ou com o futebol é uma arte marcial que acompanha bem o tremoço e dispõe bem a malta. afinal, todos gostamos de bater no ceguinho e quem não sabe é como quem não vê. e nós sabemos que os da nossa cor são os melhores, mesmo que os outros não queiram ver.

#posologia (para ler em ritmo acelerado): em caso de agravamento dos sintomas, consulte o seu médico ou farmacêutico; crónica sem base jurídica, contextual, desportiva ou lógica; não aconselhado a não falantes de português; o uso da primeira pessoa do singular e do plural é meramente estilístico, não pretendendo o cronista mostrar-se identificado com a debatite futebolóide referida no texto.

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

venenos, pecados e suas listas



retirado da Wikipedia em inglês.
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os sete pecados mortais no Cristianismo:


Lust (Latin, luxuria)

Lust (or lechery) is usually thought of as excessive thoughts or desires of a sexual nature. Giving in to lusts can lead to sexual or sociological compulsions and/or transgressions including (but not limited to) sexual addiction, fornication, adultery, bestiality, rape, perversion, and incest. Dante's criterion was "excessive love of others," which therefore rendered love and devotion to God as secondary. In "Purgatorio", the penitent walks within flames to purge himself of lustful/sexual thoughts and feelings.

Gluttony (Latin, gula)


"Excess"
(Albert Anker, 1896)

Derived from the Latin gluttire, meaning to gulp down or swallow, gluttony is the over-indulgence and over-consumption of anything to the point of waste. In the Christian religions, it is considered a sin because of the excessive desire for food, or its withholding from the needy.[3]

Depending on the culture, it can be seen as either a vice or a sign of status. Where food is relatively scarce, being able to eat well might be something to take pride in (although this can also result in a moral backlash when confronted with the reality of those less fortunate). Where food is routinely plentiful, it may be considered a sign of self-control to resist the temptation to over-indulge.

Medieval church leaders (e.g., Thomas Aquinas) took a more expansive view of gluttony,[3] arguing that it could also include an obsessive anticipation of meals, and the constant eating of delicacies and excessively costly foods.[4] Aquinas went so far as to prepare a list of six ways to commit gluttony, including:

  • Praepropere - eating too soon.
  • Laute - eating too expensively (washedly).
  • Nimis - eating too much.
  • Ardenter - eating too eagerly (burningly).
  • Studiose - eating too daintily (keenly).
  • Forente - eating wildly (boringly).

Greed (Latin, avaritia)

Greed (or avarice, covetousness) is, like lust and gluttony, a sin of excess. However, greed (as seen by the church) is applied to the acquisition of wealth in particular. St. Thomas Aquinas wrote that greed was "a sin against God, just as all mortal sins, in as much as man condemns things eternal for the sake of temporal things." In Dante's Purgatory, the penitents were bound and laid face down on the ground for having concentrated too much on earthly thoughts. "Avarice" is more of a blanket term that can describe many other examples of greedy behavior. These include disloyalty, deliberate betrayal, or treason,[citations needed] especially for personal gain, for example through bribery . Scavenging[citation needed] and hoarding of materials or objects, theft and robbery, especially by means of violence, trickery, or manipulation of authority are all actions that may be inspired by greed. Such misdeeds can include simony, where one profits from soliciting goods within the actual confines of a church.

Sloth (Latin, acedia)

More than other sins, the definition of sloth has changed considerably since its original inclusion among the seven deadly sins. In fact it was first called the sin of sadness or despair. It had been in the early years of Christianity characterized by what modern writers would now describe as melancholy: apathy, depression, and joylessness — the last being viewed as being a refusal to enjoy the goodness of God and the world God created. Originally, its place was fulfilled by two other aspects, acedia and sadness. The former described a spiritual apathy that affected the faithful by discouraging them from their religious work. Sadness (tristitia in Latin) described a feeling of dissatisfaction or discontent, which caused unhappiness with one's current situation. When Thomas Aquinas selected acedia for his list, he described it as an "uneasiness of the mind", being a progenitor for lesser sins such as restlessness and instability. Dante refined this definition further, describing sloth as being the "failure to love God with all one's heart, all one's mind and all one's soul." He also described it as the middle sin, and as such was the only sin characterised by an absence or insufficiency of love. In his "Purgatorio", the slothful penitents were made to run continuously at top speed.

The modern view of the vice, as highlighted by its contrary virtue of zeal or diligence, is that it represents the failure to utilize one's talents and gifts. For example, a student who does not work beyond what is required (and thus fails to achieve his or her full potential) could be labeled slothful.

Current interpretations are therefore much less stringent and comprehensive than they were in medieval times, and portray sloth as being more simply a sin of laziness or indifference, of an unwillingness to act, an unwillingness to care (rather than a failure to love God and his works). For this reason sloth is now often seen as being considerably less serious than the other sins, more a sin of omission than of commission.

The sloth, a South American mammal, was named after this sin by Roman Catholic explorers.

Wrath (Latin, ira)

Wrath (or anger or "Rage") may be described as inordinate and uncontrolled feelings of hatred and anger. These feelings can manifest as vehement denial of the truth, both to others and in the form of self-denial, impatience with the procedure of law, and the desire to seek revenge outside of the workings of the justice system (such as engaging in vigilantism) and generally wishing to do evil or harm to others. The transgressions borne of vengeance are among the most serious, including murder, assault, and in extreme cases, genocide. Wrath is the only sin not necessarily associated with selfishness or self-interest (although one can of course be wrathful for selfish reasons, such as jealousy, closely related to the sin of envy). Dante described vengeance as "love of justice perverted to revenge and spite". In its original form, the sin of wrath also encompassed anger pointed internally rather than externally. Thus suicide was deemed as the ultimate, albeit tragic, expression of wrath directed inwardly, a final rejection of God's gifts.

Envy (Latin, invidia)

Like greed, envy may be characterized by an insatiable desire; they differ, however, for two main reasons. First, greed is largely associated with material goods, whereas envy may apply more generally. Second, those who commit the sin of envy resent that another person has something they perceive themselves as lacking, and wish the other person to be deprived of it. Dante defined this as "love of one's own good perverted to a desire to deprive other men of theirs." In Dante's Purgatory, the punishment for the envious is to have their eyes sewn shut with wire because they have gained sinful pleasure from seeing others brought low. Aquinas described envy as "sorrow for another's good".[5]

Pride (Latin, superbia)

In almost every list pride (or hubris or "vanity") is considered the original and most serious of the seven deadly sins, and indeed the ultimate source from which the others arise. It is identified as a desire to be more important or attractive than others, failing to acknowledge the good work of others, and excessive love of self (especially holding self out of proper position toward God). Dante's definition was "love of self perverted to hatred and contempt for one's neighbor." In Jacob Bidermann's medieval miracle play, Cenodoxus, pride is the deadliest of all the sins and leads directly to the damnation of the titulary famed Parisian doctor. In perhaps the best-known example, the story of Lucifer, pride (his desire to compete with God) was what caused his fall from Heaven, and his resultant transformation into Satan. Vanity and narcissism are prime examples of this sin. In Dante's Divine Comedy, the penitents were forced to walk with stone slabs bearing down on their backs in order to induce feelings of humility.

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os três/cinco/seis venenos no Budismo:

Three Poisons

In Mahayana Buddhism, the mūla kleśa (English: root poisons) of the Twelve Nidānas are:

  1. ignorance (Sanskrit: Avidyā; Tibetan: ma rig pa)
  2. attachment (Sanskrit: Upādāna; Tibetan: len pa)
  3. craving (Sanskrit: Tṛṣṇā; Tibetan: sred pa)

In other enumerations of the mula kleśa, hatred or anger (Sanskrit: dveṣa; Tib.: ཞེ་སྡང་ zhe sdang; 瞋 Cn: chēn; Jp: jin; Vi: sân) is substituted for ignorance.

These three mula kleśa are rendered into English as the 'Three Poisons' and are symbolized by the Gankyil.

These three klesas specifically refer to the subtle movement of mind (Sanskrit: citta) when it initially encounters a mental object (In Buddhist conceptions of the mind, 'mental object' refers to any object which the mind perceives, be it a thought, emotion or object perceived by the physical senses.). If the mind initially reacts by moving towards the mental object, seeking it out, or attaching to it, the experience and results will be tinged by the upādāna klesha. Unpleasant objects or experiences are often met by aversion, or the mind moving away from the object, which is the root for hatred and anger to arise in relation to the object.

Five Poisons

The Five Poisons (Sanskrit: pañca-kleśa; Tibetan: Japanese: go-shō), also known as the Five Disturbing Emotions are:

  1. Passion ( desire, greed, lust, etc.)
  2. Aggression (anger, hatred, resentment etc.)
  3. Ignorance (bewilderment, confusion, apathy etc.)
  4. Pride (wounded pride, low-self esteem etc.)
  5. Jealousy ( envy, paranoia etc.)

All Buddhist schools teach that through Tranquility (Samatha) meditation the kilesas are pacified, though not eradicated, and through Insight (Vipassana) the true nature of the kilesas and the mind itself is understood. When the empty nature of the Self and the Mind is fully understood, there is no longer a root for the disturbing emotions to be attached to, and the disturbing emotions lose their power to distract the mind.

Six Defilements of Vasubandhu

Vasubandhu articulates an array of Six Kilesha rendered in English as the 'Six Basic Defilements' or 'Six Primary Afflictions' within the Abhidharma-kośa. The Six Kilesa are:

  • greed (Sanskrit: rāga),
  • hatred (Sanskrit: pratigha),
  • ignorance (Sanskrit: avidyā),
  • arrogance (Sanskrit: māna),
  • doubt (Sanskrit: vicikitsā), and
  • false views or opinionatedness (Sanskrit: dṛṣṭi).[15]

In the context of the Yogācāra school of Buddhism, Muller (2004: p.207) states that the Six Kleśa arise due to the "...reification of an 'imagined self' (Sanskrit: satkāya-dṛṣṭi)."[16]

Mantrayana

Two obscurations

In the Mantrayana, an enumeration of 'two obscurations' (Wylie: sgrib gnyis) are codified. The 'obscuration of conflicting emotions' (Wylie: nyon-mongs-pa'i sgrib-ma, Sanskrit: kleśa-varaṇa) and the 'obscuration concerning the knowable' (Wylie: shes-bya'i sgrib-ma, Sanskrit: jñeyāvaraṇa).[17]


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retirado da Wikipedia em inglês.

pecado não é


Entristece-me a forma como usamos a palavra pecado. O conceito de temos de pecado. A maneira como lidamos com o pecado. Sei que a culpa da distorção é, em grande medida, da Igreja Católica e, em menor percentagem, das outras Igrejas Cristãs. Mas ainda assim, entristece-me ouvir dizer pecado como significando "prazer interdito que sabe bem, que sabe tão bem que tinha mesmo de ser pecado."

É uma palermice de todo o tamanho. Mas foram os moralistas, com os seus inflamados sermões, que amedrontaram as pessoas. Que instigaram o medo de ter prazer. Que associaram o que o corpo gosta ao demónio. Que colaram o sexo ao pecado. Que ajudaram a deturpar o sentido da palavra luxúria. Mas não deixa de ser uma palermice usar a palavra no sentido que citei no parágrafo anterior.

Pecado é - e claro que é um conceito religioso - o que nos afasta de Deus. E, por arrasto, o que nos afasta da felicidade. Pois a felicidade está em Deus, para quem acredita. A lista dos pecados capitais é prática pois é uma amostra das principais debilidades da personalidade humana.

Pecar é, sempre, sucumbir a uma forma de escravidão. Por isso dizer que se é adepto do "amor livre" é dizer uma redundância enorme. Só existe amor livre. Claro que a expressão significa o que significa. Mas, o uso da linguagem tem estas subversões, para muitas pessoas de pendor marcadamente moralista a expressão "amor livre" é em si mesma sinónimo de pecado. Pecar é quase o antónimo perfeito de amar. Pecar é não amar. É não querer amar. Ou não o conseguir.

Ser livre de pecado é, simples e maravilhosamente, ser absolutamente livre. Livre dos medos que o nosso ego inspira, livre da mesquinhez que destilamos por não sabermos sempre como lidar com os outros, livre das obsessões com coisas que são boas em si [comer, ter sexo, usufruir do ócio] mas que foram feitas para nosso prazer. Não fomos nós a sermos criados para elas, para a sua idolatração cega.

Pecar tem ainda duas implicações importantes [além do mal que nos faz a nós próprios]. Quase sempre tem um impacto directo nos outros, que sofrem com a nossa imaturidade egoísta, com a nossa cegueira relacional ou desprezo pelo outro. E, o que é essencial para alguém religioso, afasta-nos do caminho de felicidade que Deus nos preparou, afasta-nos Dele, do Seu amor.

Não pecar não significa [outra palermice repetida vezes sem conta] ser beato, betinho, santinho, ou coisa do género. Quem tem uma vida consciente e se procura afastar do pecado tem e gosta de ter prazer em comer, em ter muitos e bons orgasmos, em passar períodos sem fazer nada, gosta de si, gosta da e saboreia a vida. Acredita, até, que o faz de forma mais consciente, mais plena, com mais sentido.

Tenham muito prazer em viver. Se valorizam o sexo aprendam a melhorá-lo, a elevá-lo e a encontrar a sincronia íntima e gritante com @ parceir@. Se apreciam os prazeres da mesa, aperfeiçoem o paladar, estimulem o requinte, reconheçam a satisfação. Se têm outros prazeres pessoais, usem-nos como forma de encontrar plenitude no tempo que passam cá na terra, como forma de satisfazer o corpo e a mente. Agora sejam lá sinceros convosco mesmo... o que acabei de dizer neste parágrafo... não é muito mais interessante que dizer "pequem muito e bem" ou "descubram os prazeres da carne" ou qualquer outro cliché que usa e abusa [arrogante ou displicentemente desfasado do significado e do contexto] da palavra pecado?

Em cima:
Madonna
Munch

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texto escrito originalmente em Março de 2008

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

em que é que acredita um agnóstico? em não acreditar?

A julgar pela definição dos próprios, em debates televisivos, é difícil encontrar um agnóstico curioso em relação à transcendência. Espero encontrar literatura que me esclareça. Sempre respeitei a posição cautelosa do agnosticismo. E sempre desconfiei da atitude rocambulescamente voluntariosa dos gnósticos. Mas estes, no seu misturar sôfrego de alhos com bugalhos, pelo menos demonstram quererem saber algo mais, ou experimentá-lo. Os ateus, repito-o, fazem um caminho que equilibra as forças filosóficas do mundo. É um caminho de rigor, de sensatez. Que ajuda a trazer à terra os falsos ascetas, os viciados no êxtase do corpo, na narcotização da alma, no assombro da mente. Os religiosos, a maior parte do tempo, chateiam todos os outros com o seu moralismo apontado para fora deles. E, lamento-o profundamente, ainda ontem no debate na RTP conduzido por Nuno Santos se viu que o catolicismo de muita gente é mais ideológico e cultural que outra coisa. Meus amigos, a experiência religiosa é acima de tudo uma experiência do sobrenatural. Por isso existe ateísmo. Existe a negação da transcendência que as tradições dos cultos ensinam. Que não se pode provar nem negar cartesianamente a existência de Deus também os ateus e os teístas o sabem perfeitamente. E não é por isso que são agnósticos. O que é, afinal, um agnóstico?

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texto escrito originalmente em Abril de 2005

Domingo, 12 de Abril de 2009

vida


Ei-lo, na tranquila imobilidade em que cresceu. Não que exista imobilidade. Antes uma quietude em que os seus ramos encontram espaço. Um tempo sem a sofreguidão do tempo. No fim do dia é um verde escuro que os olhos descobrem onde há umas horas um quase translúcido verde brincava com as cintilações que o sol enviava. Uma brisa confirma a existência do movimento. algumas folhas dançam uma descida até ao solo. Caem sobre robustas raízes. Os fundamentos que demoraram uma vida a consolidar. Este tronco começou, em promessa ainda, numa semente minúscula. Tão insignificante que os pássaros não a escolheram como alimento, ou talvez nem a vislumbrassem. A terra acolheu chuva, formou húmus. A semente alimentou-se, fez-se ela própria alimento. Em breve um minúsculo membro delicado irrompia. Umas quase invisíveis ramificações se começavam a estender. Entre o momento da queda na terra e o romper da penumbra para encontrar a claridade do sol outros seres cresceram. Ervas daninhas, rápidas como o susto, vivificaram. Foram mastigadas por animais, pisadas. Passou o seu ciclo natural. E a semente ainda só tinha oferecido uns milímetros acima do solo. Anos se passaram até que o exterior do tronco começasse a endurecer. Outros troncos reinavam, apontando orgulhosos ramos ao firmamento. Vieram doenças, veio a seca. Muitos sucumbiram. Ele, ainda pequeno, cresceu na discrição dos humildes. Vieram homens com seus machados. Os que tinham sobrevivido à falta de água ou ao excesso de maleitas foram abatidos pela sua madeira. Ele, cheio de nós e de estatura modesta, serviu como sombra para deleite dos lenhadores, depois do trabalho. Vieram mais homens. Com outras ferramentas. Construíram caminhos. Outros troncos, ainda verdes, estavam no caminho. Ele, que cresceu nas rochas, não incomodou. À sua sombra se comiam agora os seus frutos sumarentos. Os homens e as mulheres tiveram filhos. Aquele tronco atraía os mais pequenos, que espreitavam os ninhos de pássaros, os buracos feitos pelos pica-paus. As magníficas e serpenteantes raízes. Faziam roda à volta dele, cantando. As crianças cresceram. Tiveram por sua vez filhos. Aos quais ensinaram as épocas em que surgiam os ninhos. As crianças aprenderam a não colher os frutos enquanto verdes. Aprenderam a dizer folhagem persistente. Aprenderam que um ninho, no meio da ramagem, era reocupado todos os anos por um casal de aves. Entretanto já algumas árvores tinham sido plantadas. Eram de folha caduca. A sua nudez invernal fazia sobressair a densidade verde-castanha deste tronco. No verão as árvores mais jovens, plantadas já meio-crescidas e protegidas pelos homens, eram mais exuberantes, muito mais altas e com folhas mais exóticas. Mas não davam fruto. Nem a sua sombra servia. Já a sombra dele era consistente e preciosa. Sendo muito largo e baixo, com muitos ramos grossos e de ângulos abertos, era o sítio ideal para os trabalhadores que dormiam um pouco descansando do trabalho, ou os casais enamorados que conseguiam um furtivo beijo às escondidas dos pais. Ei-lo. Parece imóvel. Dir-se-ia que sempre esteve ali. Que sempre foi um ancião de casca endurecida, fraca para a lenha ou a arte dos homens. Que sempre teve o seu tamanho actual. Mas começou por ser uma insignificante semente que nem os pássaros quiseram.

Sábado, 11 de Abril de 2009

vá para dentro

acho notável a força conotativa que um português consegue imprimir à expressão lá fora. dizemos, lá fora não é nada assim, lá fora ganha-se bem, lá fora é que está o grande capital. mas também, ele é reconhecido lá fora, ela vai tentar construir uma carreira lá fora, eles são desconhecidos cá mas têm imenso prestígio lá fora. até a publicidade contribuiu, usando a expressão simétrica, para a sagração destas duas palavras. vá para fora cá dentro. e cá dentro, o que é isso? a forma como falamos do admirável mundo novo que existe lá fora torna evidente que estamos em conflito com o mundinho cá dentro. e a pequenez deste mundinho é exponenciada infinitamente com a expressão lá fora. é que dizer lá fora não é o mesmo que dizer na maior parte dos países desenvolvidos, na europa, nos outros países europeus, na América do Norte, em Espanha, no hemisfério sul. não. dizer lá fora é abarcar numa mesma expressão a Islândia, o Mónaco, o Butão, a Austrália, Marrocos e todas as outras nações não-Portugal. é falar de tudo o que está depois da fronteira como se fosse tudo o que está depois da fronteira da nossa pele. é pensarmos no exterior de Portugal como se fosse o exterior do nosso corpo, e sentíssemos como é ínfimo o nosso país em relação a tudo o que o ultrapassa, tal como sentimos que é ínfimo o nosso corpo em relação a tudo o que o rodeia. mas a fronteira aqui será uma fronteira mental, que circunscreve o território português e o culpa por tão grande diferença em relação ao que lhe é estranho. por vezes parece-me discurso de presidiário este discurso do lá fora. como se um muro nos separasse da liberdade, das oportunidades e da prosperidade que só lá fora são possíveis. como se uma sentença se abatesse sobre nós, confinando-nos a uma cela, castigando-nos com a nacionalidade portuguesa.